Flores

reflexões, Sem categoria

Pegadas profundas dão-se a conhecer aos risos penetrantes em que me afogo. Nado até ao cimo, deixando-me levar pela luxúria do jardim de Narcisos que me salva, descartando a minha sombra mais nítida.

Gostava que não coubessem mais mentiras nos meus pulmões, mas já metastizaram para todos os recantos da minha alma. Invadiram todos os espaços em que ainda havia um resto de ti, da tua verdade.

Terra dos Lençóis

reflexões, Sem categoria

Deparei-me comigo mesma perdida num dia insignificante. Com mais olhos que barriga, carrego uma ansiedade por toda a novidade que a calçada lisboeta tem por oferecer. Mas ao afastar-me dos pensamentos que a terra dos lençóis transborda a cada amanhecer, caio na realidade das minhas expectativas dúbias.

Pergunto-me se serei a única com uma motivação constante para procrastinar, que escolhe o conforto à aventura, as pantufas às “havaianas”, o pensamento à concretização. Em pequena não perdia um dia de praia, um raio de sol, valorizava aquilo que não sabia poder perder. Joelhos negros e cotovelos rasgados pela emoção de viver faziam parte de um dia-a-dia esperado com entusiasmo, sem pensamentos de um futuro inalcançável.

Como é que posso reconstruir uma imprudência corrompida pela vontade intensa de controlo? Vejo mais um dia que passou, uma oportunidade de reconciliação com o tempo perdida. Tantos dias tatuados com este ritual exausto, mas ainda assim recuso-me a sucumbir. Vejo mais um dia que passou, estrelas que nascem lentamente no horizonte, oportunidades filhas de um novo dia que nos espera e deposita em nós a sua esperança.

Gaivota

poesia, Sem categoria

Habita na minha memória

uma gaivota ansiosa.

Sem o saber, laçou

para mim o tempo,

fez voar o desalento.

 

Nesse lugar adormecido

pintou os mares de todo o mundo,

fez do monstro inquilino

algo vago e moribundo.

 

Traçou os meus pensamentos,

fez seus todos os ventos.

Partiu num voo rasteiro,

despedida e reencontro

que foram de nevoeiro.

Instantes

poesia, Sem categoria

 

Naquele tempo éramos olhares

perdidos de ânsia, consciências

inumadas desta vida fugaz e trémula.

Acreditávamos em Verões ressuscitados,

respirávamos serões precipitados.

 

Hoje somos instantes coadunados

por uma amizade improvável,

um amor silencioso e inócuo.

Habitantes de um Agosto eterno

culpado do amanhã insaciável.

 

E quando esse sonhar se houver

dissipado seremos outros,

Mas teremos sempre a memória,

as conversas despidas, e aquele

sentimento breve de juventude.

Perfeita

reflexões, Sem categoria

Perfeição é um conjunto inequívoco de ambiguidade e tolerância, uma ideia que persiste na dúvida que encarna. É uma vontade resiliente que se molda aos desafios que o tempo impõe, procurando apenas flutuar no suave e eterno mar de compaixão que o destino nega.

Duvida da perfeição quem vive no esquecimento de a ter vivido. Tomando-a como uma verdade imaculada e inalcançável muitos se enganam, esquecendo-se dos momentos que não trocariam, dias de sol que se entranham na pele, mar de um verão que se tornou sangue das memórias que ficam para trás.

Dá e leva

reflexões, Sem categoria

A Vida, desde sempre irrequieta, impulsiva e imprevisível, sentia-se sozinha. Cativa da solidão aceitou os inquilinos da sua mente, criou-os, ajustou-os, levou-os até um estadode perfeição imperfeita de toque tranquilizante.

Ainda sozinha apercebeu-se da realidade da sua existência, na qual os inquilinos fugazes ocupam um lugar ínfimo, desprezível. Envolta no seu altruísmo decidiu oferecê-los à Morte, que faminta os absorveria velozmente.

Desta solidão absoluta e fome ressentida surgiu uma história de amor, uma troca infinita de linha ténues e acabadas.